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FORTE

19 mai

Palavras, melodia, sintonia…

Sergio Sampaio

EU FUI ATÉ O DOI-CODI

8 fev

Semana passada estive em São Paulo para cobrir a data que lembra um ano do acidente do vôo 3054 da TAM. Aproveitei minha passada pela cidade e fui até a rua Tutóia, bairro Paraíso, onde hoje funciona a 36º Delegacia de Polícia da região. Mas no passado aquele local era conhecido por DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna). Lá dentro, muitos homens e mulheres foram torturados durante a ditadura militar. Foi lá que o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pelos agentes da repressão. Foi o principal órgão centralizador de informações para os militares e se transformou num prédio onde torturas, homicídios e desaparecimentos se tornaram constantes naquela época.

 

Relatos apontam que, no mínimo, 64 pessoas perderam a vida ou desapareceram no antigo prédio do DOI-CODI.

 

“Alguns foram submetidos a torturas, como o telefone (tapa que se aplica simultaneamente, com as mãos em concha, nos dois ouvidos da vítima, muitas vezes lhe estourando os tímpanos), o pau-de-arara (pau roliço que, depois de passado por ambos os joelhos e cotovelos flexionados, é suspenso em dois suportes, ficando a vítima de cabeça para baixo e como que de cócoras, sujeita a pancadas e choques elétricos) e o banho chinês (mergulhar a cabeça da vítima em uma tina de água fervida ou de óleo até virtualmente sufocá-la)” (BRASIL: DE CASTELO A TANCREDO, DE THOMAS SKIDMORE,1994,p.57).

 

Passar pela frente do antigo prédio do DOI-CODI, onde dezenas de pessoas perderam a vida através da brutalidade provocaram, pelo menos, novas reflexões.

VLADO

8 fev

25 de outubro de 1975. Rua Tutóia, São Paulo. Endereço onde ficava o conhecido e tão temível DOI-CODI.

 

Naquele dia os gritos do jornalista Vladir Herzog foram ouvidos por todos os outros presos. Homens e mulheres que militavam contra a repressão. Foram choques elétricos e socos que fizeram Vlado gritar tão alto.

 

Os colegas das salas vizinhas viram por baixo do capuz os sapatos de Vlado entrando no prédio. O diretor de jornalismo da TV Cultura havia sido intimado a dar explicações sobre uma possível ligação com o Partidão, nome dado ao Partido Comunista Brasileiro.

 

Depois de tanta angústia, ninguém escutou mais nada. Nenhum berro, nenhum choro, nenhuma demonstração de pavor. 

 

Em algumas horas a notícia que poucos acreditaram: Vladimir Herzog cometeu suicídio. O corpo foi encontrado enforcado em uma das celas. A versão dos militares não foi sustentada. Herzog foi assassinado. Mais uma vítima da Ditadura Militar.

 

Hoje, Vladimir Herzog é símbolo dos jornalistas. Profissionais que não sofrem mais com a repressão, mas muitas vezes esbarram na auto-censura.

 

A história que marcou a fase final da Ditadura provoca revolta de um tempo que acabou com tantas vidas.

 

Milhares de pessoas acompanharam o enterro do jornalista, que não foi enterrado nos cantos do cemitério, como manda a tradição judaica quando alguém comete suicídio.

 

Herzog virou um símbolo da luta pela liberdade e a defesa dos direitos humanos.

ACORDA AMOR E CHAMA O LADRÃO

8 fev

Estava ouvindo agora Chico Buarque e me lembrei das músicas proibidas na época da Ditadura Militar.

Chico já tinha duas canções censuradas: “Cálice” e “Apesar de você”. Para não correr o risco de ter mais uma música presa na rede do sistema repressivo veio a idéia de criar “Julinho de Adelaide “.

Julinho na verdade era um pseudônimo criado pelo cantor na tentativa de enganar os agentes da censura. A música “Acorda amor” foi sua primeira tentativa. E deu certo.

Foram poucas letras que “Julinho” conseguiu escrever e obter a permissão dos censores. Mas uma reportagem de um jornal da época, flagrou a farsa do cantor.

É, depois daquelas tentativas, ficou muito mais difícil encarar “os homens”. A partir deste fato passou a ser necessária a apresentação de um documento de identidade dos compositores acompanhando a letra da música.

A letra de “Acorda Amor” retrata a cara da Ditadura. A sirene da polícia, os barulhos no portão… os passos na escada. Parecia pesadelo, mas foi assim que muitos homens e mulheres sumiram durante aquela época, principalmente em 1968, depois que o AI-5 passou a vigorar.

“Chame, chame, chame o ladrão” canta Chico. Um verdadeiro deboche de quem não confiava mais nem na polícia.

Em uma das partes mais emocionantes, Julinho de Adelaide, na frente do grande poeta Chico, pede: “depois de um ano eu não vindo ponha roupa de domingo e pode me esquecer”.

Muita gente ainda espera seus irmãos, amigos, namorados que ainda não voltaram…

ACORDA AMOR
Composição: Leonel Paiva/Julinho da Adelaide
Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão
Acorda amor
Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão
Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo
Ponha a roupa de domingo
E pode me esquecer
Acorda amor
Que o bicho é brabo e não sossega
Se você corre o bicho pega
Se fica não sei não
Atenção
Não demora
Dia desses chega a sua hora
Não discuta à toa não reclame
Clame, chame lá, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)

O SOL NAS BANCAS DE REVISTA

8 fev

Durou pouco tempo. Foram apenas seis meses que o Sol brilhou nas bancas de revistas.

Talvez a força da Ditadura Militar, seguida da repressão, tenha abalado o que foi considerado um dos primeiros jornais alternativos no Brasil diante de um período tão conturbado na história política do País.

O Sol tentou vida longa, mas resistiu o suficiente para fazer história. E que história…

Era o ano de 1967. Os ânimos no Brasil já estavam alterados. Os jovens começavam a respirar um “ar” diferente. Ares vindos de Paris. Poucos meses separavam 67 do ano mágico de 1968.

Foi nessa época que o jornal “O SOL” começava a circular diariamente. Em suas páginas: cultura, educação e política. Como não falar de política?

Alguns estudantes puderam fazer escola na redação do impresso. Grandes nomes do jornalismo e da cultura passaram pelas páginas do jornal.

Ziraldo marcou com seus traços. Zuenir Ventura e Arnaldo Jabor também prestaram consultoria para os jornalistas e estudantes que pelo Sol passaram. Chico Buarque também deixou seu nome por ali, mesmo que como desenhista. O grande Carlos Heitor Cony e Fernando Gabeira completam a lista.

Quanta gente rica em cultura, expressão e em ideais alimentaram o desejo de passar para as páginas de papéis as palavras que tantos adolescentes gostariam de falar… que muitos outros gostariam de ouvir.

A “geração de 68″ foi bem representada no periódico, idealizado pelo poeta Reynaldo Jardim. O jornal que lutou no “front” da democracia, teve uma tiragem de 70 mil exemplares diários.

O Sol surpreendeu… assim como a manchete “Che Guevara pode estar vivo”. Enquanto os principais jornais do Brasil já davam o líder argentino como morto, o pequeno impresso de esquerda optava por acreditar na sobrevivência. Alguns repórteres e editores, na época, choravam com a notícia. Era o velho idealismo da juventude de esquerda que não acreditava que o seu maior líder deixava a batalha.

Assim como essa, muitas outras notícias marcaram a vida curta de O SOL. Jornal que deu fôlego para jovens, que naquela época, caminhavam contra o vento. Que lutavam e que buscavam a liberdade. Liberdade, aliás, que a publicação não conseguiu. Passou pela Ditadura e nela ficou.

No documentário “O SOL” de Tetê Moraes, Caetano Veloso nega que tenha escrito para o jornal, mas é impossível não associar o impresso com uma das músicas mais marcantes de Caetano… “O Sol nas bancas de revista, me enche de alegria e preguiça”.

E ficam as histórias…

Capa de um exemplar de O SOL

Capa de um exemplar de O SOL

É PROIBIDO PROIBIR

8 fev

Caetano Veloso repetiu em uma de suas mais conhecidas músicas, o slogan dos estudantes franceses que saíram às ruas em 1968. “É proibido proibir”. Os jovens, em maio daquele ano, queriam mudanças. As ruas de Paris se tornaram verdadeiros campos de batalha. De um lado o governo, de outro os jovens que planejavam um futuro mais promissor e lutavam por ele, mesmo que com força desigual.

A juventude do mundo estava movida por uma até hoje misteriosa sintonia de inquietação e anseios. Não só na França, mas no Japão, Inglaterra, Polônia e até na Itália, o ano foi marcado pela geração jovem que arregaçou as mangas e partiu para as ruas. A ordem era : “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”. Pois bem, os brasileiros seguiram à risca. Costa e Silva, então presidente do País, tinha 66 anos.

O Brasil se transformava. Policiais do Rio de Janeiro tentaram calar o grito de estudantes que pediam melhores condições para o “Calabouço”, um restaurante popular voltado aos jovens de colégios, universidades ou os que se preparavam para o vestibular. Lá era possível almoçar por dois cruzeiros a bandeja.

Em meio às pedras jogadas pelos jovens que desafiavam as armas, um tiro pareceu calar a inquietação. Calou, pelo menos, Edson Luis de Lima Souto, de 17 anos.

O encanto terminou para quem acreditava que a polícia traria a tranquilidade nas ruas da “cidade maravilhosa”. A ditadura mostrava, mais uma vez, do que era capaz.

A morte de um jovem secundarista desconhecido podia levar o país a uma crise e o povo à indignação, como levou naquela sexta-feira 29 de março de 1968, quando 50 mil pessoas acompanharam o corpo de Edson Luis.

Velado na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro teve como pano de fundo discursos políticos contra o então governo. Atores que encenavam peças de teatro interromperam as apresentações e do palco convidavam a platéia a presenciar o velório e o enterro. A cena não fazia parte dos roteiros.
Surgia um símbolo ou um marco inicial de uma revolta da população, que ainda tendia a aumentar.

A revolta não coube dentro do Rio de Janeiro. Passeatas em Brasília resultaram em 20 feridos. Em Salvador, Curitiba e Porto Alegre a população também não se manteve quieta.

Sentindo a perda do controle, o governo num ato que mostrava a face da ditadura militar, manda proibir qualquer tipo de manifestação. Não seria permitido se rebelar contra o governo. Os jovens que carregavam faixas com os dizeres: “Bala mata a fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão”, “Mataram um estudante. E se fosse um filho seu?”, se calaram. Pelo menos naquela noite.

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