Era 2004.
Lembro bem a data: 5 de agosto.
Uma dor de dente terrível. Durante a tarde havia ido aos estúdios da rádio Gaúcha participar da mesa redonda mais ouvida dos gaúchos: Sala de Redação.
Quando saí recebi o telefonema:
-Te arruma pq a noite vamos na TV GUAÍBA.
Naquele ano estavamos trabalhando no documentário “Pedrinho morreu na primavera”, que narra a história de um dos mais importantes narradores do Rio Grande do Sul.
Clóvis Duarte, então apresentador do famoso CÂMERA 2, queria saber dessa história ao vivo.
O programa era tarde, umas dez horas da noite.
Meu dente explodia, mal conseguia falar.
Na porta da emissora encontrei o professor Ferraretto, orientador do documentário. Falei a ele do meu nervosismo e da minha dor.
Passamos pelos corredores da emissora, pelo jardim de inverno, descemos as escadas e entramos no estúdio. O programa estava no intervalo.
Clóvis, ainda na bancada, pediu que nos posicionassemos nas poltronas em um outro cenário. Eu de um lado, professor Ferraretto de outro. Além do apresentador e dos comentáristas, cinegrafistas e produtores lotavam o pequeno estúdio.
Clóvis Duarte deixou a bancada e já no ar foi falando de Pedrinho mas logo nos apresentou:
-O futuro jornalista Marcus Reis e seu professor estão aqui para falar sobre esse vídeo, sobre essa história…
A conversa foi animada, interessante… mas nada se compara ao vídeo que exibimos no meio da entrevista. Levamos uma espécie de “trailer” do documentário. Imagens de Pedro Carneiro Pereira, os depoimentos emocionados da esposa, dos filhos e de grandes e famosos amigos.
Foram três minutos.
Volta para o estúdio e uma imagem que nunca mais esqueci.
Clóvis Duarte olhava atento para o monitor que não mais exibia o vídeo. Voltou a olhar para as câmeras e a voz falhou. Clóvis havia se emocionado. Quase nenhuma palavra saia. Até que um “já voltamos”.
A vinheta do Câmera 2 rodava, Clóvis emocionado, Magda Beatriz na bancada também. E os cinegrafistas num silêncio absurdo.
Quem conheceu Pedrinho normalmente se emocioanava ao relembrar daquela história.
Minha dor de dente? Nem lembrava mais…
Falhou a voz de Clóvis Duarte.
Foi a primeira e única vez em que estive frente a frente com ele.
Hoje fui surpreendido com a notícia de que Clóvis morreu depois de tratamentos contra um câncer. O Rio Grande do Sul perdeu mais um grande jornalista.
Um professor de Biologia que chegou a dar aula para os meus pais. Clóvis marcou a vida deles, a minha e a de tantos outros gaúchos que algum dia foram informados por ele.
Do dia 5 de agosto de 2004 até hoje muita coisa mudou.
O interessante é que hoje eu trabalho numa redação construída no mesmo espaço onde naquela época funcionava os estúdios do Câmera 2. Caminho, todos os dias, pelos corredores da antiga TV GUAÍBA, passo todas as tardes pelo jardim de inverno. Não há como não lembrar de Clóvis Duarte e da noite em que a voz dele falhou no ar.

Comentários