E A MALLU ESTAVA LÁ??

22 jun

— E a Mallu, estava lá?

É o que todos perguntam quando digo que visitei Marcelo Camelo. Como se o ex-líder do Los Hermanos, a última banda brasileira a conquistar público e crítica, tivesse se transformado em mero marido de Mallu Magalhães.

Há três anos, o romance com a cantora-prodígio paulistana, então com 16 primaveras — Camelo tinha 30 — virou controvérsia nacional. “Só apareci no Fantástico quando o George Harrison falou de Anna Julia, quando apanhei do Chorão e quando comecei a namorar a Mallu”, ri Camelo, carioca de Jacarepaguá. O casal é alvo permanente de paparazzi. “Uma vez perguntei a um fotógrafo por que ele clicava a gente num café. Ele mandou: ‘Você é uma figura pública’. Matutei: em que momento assinei o contrato dizendo ‘sou uma figura pública’? Em que guichê desfaço esse contrato?”

Camelo se diz mais incomodado no Rio de Janeiro do que em São Paulo. “Aqui as pessoas são mais humanas, São Paulo não te neurotiza. O disco é também sobre a cidade, o bairro de Pinheiros, este apartamento e a minha banda, que virou minha família.” Além, claro, de tratar de amor. Com dez faixas produzidas e arranjadas por Camelo, todas com o auxílio luxuoso do cultuado grupo Hurtmold e de músicos como Marcelo Jeneci e Rob Mazurek, Toque Dela é um álbum escancaradamente romântico. Como sintetizam os versos “Tudo o que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela / Vai sobrar carinho se faltar estrada ou carnaval”, a obra está voltada para o aconchego, a intimidade, só com, de e para ela.

Amor, no entanto, é mais fácil cantar do que falar. Enquanto acende um dos cinco cigarros light fumados na conversa, esse jornalista que nunca foi buscar o diploma prefere usar a entrevista para falar… de jornalismo. Noticiarem mais seus atos e opiniões do que sua música perturba o barbudo de Havaianas, calção Adidas e camisa xadrez. “Minha vida não pode ser espelho pra ninguém. Hoje existe esse fascínio pelo artista de vida interessante, valorizado mais pelo que acontece do que por sua arte, tipo o Charlie Sheen. Minha vida não tem a menor graça: eu só toco, fico dias sem sair à rua. Vez em quando paro pra cozinhar um peixe. É o meu céu: solidão e um refogado. Opa! Não coloca isso, não… A Mallu pode chatear…”, sorri.

O “exílio” paulistano parece ter deixado o músico mais leve — longe daquela marra que costumava provocar irritação em parte da crítica que insistia em dizer: o ex-Hermano se leva a sério demais. Sem medo de se contradizer, Camelo não foge do assunto. Fala — não necessariamente a sério — de dinheiro, política, voyeurismo, drogas, vício em tecnologia, poesia (é apaixonado pela portuguesa Maria Gabriela Llansol), fotografia (tem obsessão por câmeras antigas), bacalhau (prato favorito) e Big Brother (programa predileto). Além da Mallu, por que não.

— A Mallu estava lá?

Estava sim. Na cozinha. Na sala. No corredor. Nos quartos. Por toda a casa se veem desenhos e frases coloridos feitos pela cantora. Amigos como o cartunista André Dahmer também deixam marcas nas paredes. Pinturas naïf de Ana Camelo, sua mãe, somadas aos muitos instrumentos musicais, às plantas e às garrafas de cerveja transformadas em vasos de flores silvestres dão ao espaço de 100 metros quadrados uma atmosfera incontornavelmente hippie.

O apartamento, alugado, em breve será trocado por outro no Rio de Janeiro ou em Lisboa, informa Camelo, que tem cidadania portuguesa. “O aluguel tá muito caro”, reclama. Apesar do ar desencanado, dinheiro é tema inevitável. Refletindo sobre a polêmica envolvendo o projeto do blog de Maria Bethânia — que renderia à baiana 1,3 milhão em renúncia fiscal via Lei Rouanet —, Camelo defende o direito de todo artista fazer seu projeto, mas questiona-se. “Será certo o Estado arcar com 100% do valor? Filosoficamente, sou contra pedir dinheiro via Rouanet, sempre achei que minha arte não é representativa o suficiente para ser financiada pelo Estado — essa grana tinha de ir para a educação, o artista que se vire sozinho. Por outro lado, já quis tocar em Belém e não pude porque o preço das passagens para a banda seria proibitivo”, pondera.

Apertando a medalhinha de São Judas Tadeu, tique recorrente nos momentos exaltados, Camelo reconhece não ter posição fechada sobre o assunto. “Se dizem ‘quer amarrar teu burro num ônibus de turnê, assinar um contratão?’, respondo que não me vejo nisso eternamente. Um artista introspectivo que goste de gravar e compor mas não curta viajar se complica… Glenn Gould iria se foder hoje, iriam vazar os discos dele na internet e ele iria morrer de fome! Não dá para viver dos direitos de Anna Julia pra sempre. Claro que não existe coisa mais legal que show. Mas não queria que fosse a única possibilidade de remuneração”, diz.

— Mas e a Mallu, estava lá?

Em Toque Dela, Mallu Magalhães só participa de um coro. “O ambiente do disco é ela, o subtexto é todo ela. Por isso ela não precisa estar”, explica Camelo. Ele sonha montar uma banda com a cantora, com quem mora há dois anos. “Quando a gente toca junto, é superbonito. Ela toca muito bem piano. Faz músicas inacreditáveis, meio Satie com Chiquinha Gonzaga. Ela é sem explicação, faz uma música atrás da outra. Tá com 30 novas. É a coisa mais linda do mundo, tenho um amor enorme de ver a Mallu compondo. Comigo, só se eu estiver num ano bissexto, a luz invertida, sozinho no quarto. Com ela, qualquer assunto é assunto, qualquer melodia é melodia. Eu busco isso, sabe, essa espontaneidade, essa criação distraída. É aquele negócio que o Cevare Pavese diz: ‘Poesia é quando o idiota olha pro mar e fala que parece azeite’. É essa distração que eu procuro. Tô tentando pensar menos…”, diz Camelo. Subitamente, o celular vibra e ele pede licença para deixar a mesa. “Oi, meu amor…”, derrama-se. “Tá vindo?” Dez minutos depois, o repórter percebe que a entrevista vai terminar. A dona da casa chegou.

(por Ronaldo Bressane – Alfa/Junho de 2011)

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