DYLAN E EU

25 abr

Fechei os olhos por alguns segundos e apenas ouvi aquela voz rouca… é como se estivesse em casa escutando meu velho e bom som. Aquelas mesmas músicas tantas vezes repetidas.

Não resisti por muito tempo. “Vão achar que sou louco”, falei baixinho. Fui abrindo os olhos e vi Bob Dylan na minha frente. Sim, era ele mesmo! O músico, o poeta, o louco, o cara! Eu estava diante de um dos maiores nomes da música.

Confesso que não parecia verdade. Sabe quantas vezes sonhei com aquele momento? Não, você não tem idéia! 

Pensei que esse dia não chegaria mais. Em 2008 perdi de assistir o mestre em São Paulo. Perdi o show no Rio de Janeiro alguns dias depois. Perdi também em Buenos Aires. Acreditei ter perdido o show da vida.

Mesmo velhinho, mais carrancudo do que nunca, talvez nem aí para os fãs… ele veio! Sr. Robert Zimmerman poucos metros distantante de mim.

A multidão se espremia. Duas ou três gerações juntas. Os seguranças circulando. A grade. O palco. A chatice do velho Dylan. Muitas coisas me distanciavam dele. Ao mesmo tempo tão perto e tão longe. 

Queria apenas dizer o quanto ele me fez bem. O quanto suas canções, seus poemas musicados, seus hinos de protesto construiram a trilha sonora da minha vida. São tantos anos ouvindo Dylan e esperando por essa noite.

Eu sabia que ela acabaria cedo. Duraria apenas uma hora e quarenta. Ele é pontual (para começar e também para acabar). Talvez queira dormir cedo. É um chato! Proibiu que tirassem fotos, gravassem videos, proibiu a imprensa, proibiu o telão. Por pouco não proibe os fãs!

Talvez esses ataques o tornem ainda mais esse artista rebelde genial! Ele já fez muito pela música, eu sei.

Furam exatos 110 minutos. Esperei 27 anos para viver aqueles 110 minutos. Valeu cada segundo de uma longa espera.

Aliás, quem esperava um Bob Dylan lado B (que deixasse de fora as principais canções) se surpreendeu.

Ele cantou Like a Rolling Stone, uma das minhas favoritas. Joguei os braços para o alto acompanhando a multidão. Era como se nós estivessemos regendo o cantor e a banda.

How does it feel??? How does it feel???
 
Eu me sinto feliz e emocionado, Dylan!
 
Antes da noite acabar eu sabia que ele voltaria ao palco.
 
Voltou!
 
Mas não imaginei que seria para cantar a minha preferida!
 
The answer, my friend, is blowin’ in the wind…
 
A resposta, meu amigo, está soprando ao vento!
 
Ouvi o som de um violino e até uma quase tentativa de tocar Beatles… 
 
Dylan foi embora. Eu também. Numa noite gelada e inesquecível.
 
Talvez ele nunca mais volte.
 
The answer, my friend, is blowin’ in the wind…
 
 
 

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A VERDADEIRA REBELDIA NÃO É COISA PRA ADOLESCENTES

15 abr

Eu era ainda mais nova do que as adolescentes da novela Rebelde quando li um poema que mudou a minha vida. The Road Not Taken, do Americano Robert Frost. O título é difícil de traduzir para o português. Mas quer dizer mais ou menos O Caminho Não Trilhado.

Alguns anos depois, naquela fase que os adultos chamam de adolescência rebelde, cortei meu cabelo bem curto e pintei de preto. Achei que era o máximo da ousadia. Se todos gostavam do meu cabelo comprido, pois eu o teria curto e despenteado.

A gente demora pra descobrir que rebeldia não tem nada a ver com o corte de cabelo, piercings, tatuagens ou qualquer outro visual estranho que nos diferencie dos demais. A verdadeira rebeldia está no poema de Robert Frost. Escolher o caminho não trilhado. O mais difícil. O mais desafiador.

O poema diz que, diante de dois caminhos, ambos parecem bons para o viajante. Ele decide-se por um deles e descobre, muito mais tarde, que essa escolha fez toda a diferença em sua vida. Porque ele optou pelo oposto da maioria. Quando, nas inúmeras encruzilhadas da vida, escolhemos o novo, estamos sendo rebeldes? Se essa é a tal rebeldia, bem-vinda seja!

Fazer uma trajetória diferente daquela que o senso comum ou a cultura vigente aconselham é a rebeldia saudável, que muda a história por abrir novos caminhos para outros. Todo grande movimento que mudou o mundo começou num ato de rebeldia. Por causa das feministas, por mais que hoje eu discorde delas, as mulheres agora podem escolher que caminho desejam para si. Só para citar um dos muitos exemplos dessas revoluções que movem o planeta.

A rebeldia exige coragem. Mas não só isso. Exige sabedoria. Ponderação. A verdadeira rebeldia não é coisa pra adolescentes, mas se você quer se sentir jovem para sempreseja um rebelde.

(Ana Paula Padrão)

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E ESSA TAL DE SAUDADE…

14 fev
Dizem que é logo ali…

que nem vai dar tempo de sentir saudade. Nada que um telefonema não resolva!

… Mas é estranho saber que ela não vai estar mais na rua do lado. Não que a gente se visse todos os dias… mas eu sabia que ela tava ali. E ela sabia que eu morava aqui.

Minha vizinha, minha amiga, irmã, companheira pra todas as horas… literalmente todas as horas!

Agora ela parte para um novo rumo. Vai conhecer gente nova assim como eu um dia a conheci. Vai fazer tanta gente feliz, assim como me faz quando estamos juntos.

Estava aqui pensando: quem serão os sortudos que vão ter seus caminhos cruzados com o dela? Tanta gente que nem imagina que ela está por chegar e o quanto ela faz bem.

Ao lado dela aprendi o que é ser batalhador. O que é superar cada problema sem perder a alegria. ÔôÔ e quantos problemas apareceram…

Fomos colegas de curso, dividimos a mesma sala, compartilhamos dos mesmos sonhos. Fomos estudante, fomos colegas de trabalho, dividimos estúdios, mesas de bar, banco de ônibus, temos os mesmos amigos. Fomos estagiários,
monitores, produtores, ganhamos prêmios juntos, viajamos, guardamos diálogos memoráveis, somos jornalistas…

Talvez só não tenhamos nos conhecido antes por um detalhe do destino.

Eu sei que não é logo ali… mas sei que esse passo é um dos maiores que você já deu. E assim como todas as decisões que você tomou nestes dez anos (pouco tempo que estás
na minha vida) vou estar do teu lado… mesmo que não tão perto.

Grande Cristiane Viegas, vai mas volta!

TENHO 90 ANOS

16 out

Tenho 90 anos. Ou 93. Uma coisa ou outra.

Quando temos cinco anos, sabemos até os meses de nossa idade. Mesmo por volta dos 20 sabemos quantos anos temos. Tenho 23, dizemos, ou talvez 27. Mas quando chegamos aos 30, algo estranho começa a acontecer. A princípio é um mero sobressalto, um instante de hesitação. Quantos anos você tem? Ah eu tenho – você começa confiante, mas depois para. Ia dizer 33, mas não é essa sua idade. Você está com 35 anos. E isso o incomoda, pois fica imaginando se não é o início do fim. Claro que é, mas ainda faltam décadas para você admitir isso.

Começamos a esquecer as palavras: elas estão na ponta da língua, mas em vez de simplesmente saírem, permanecem ali. Subimos a escada para buscar alguma coisa e, quando chegamos lá em cima, não lembramos mais o que estávamos procurando. Chamamos um filho pelo nome de todos os outros e até pelo nome do cachorro antes de acertar. Às vezes esquecemos em que dia estamos. E, por fim, o ano. (…)

 Que diferença há entre três semanas, três anos ou até mesmo três décadas de purê de ervilha, mingau e fraldas geriátricas?

Tenho 90 anos. Ou 93. Uma coisa ou outra (…)

Às vezes acho que se eu tivesse de escolher entre uma espiga de milho e fazer amor com uma mulher, escolheria o milho. Não que eu não fosse gostar de curtir uma última trepada – ainda sou homem e algumas coisas nunca morrem- mas só de pensar naqueles grãos doces estourando entre os dentes fico com água na boca. É uma fantasia, eu sei. Nenhuma das duas coisas vai acontecer. Mas gosto de pesar minhas opções, como se eu estivesse diante de Salomão: uma última trepada ou uma espiga de milho. Que dilema maravilhoso. Às vezes substituo o milho por uma maçã.

(Sara Gruen – trecho genial do livro Água para Elefantes)

 

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QUANDO FALHOU A VOZ DE CLÓVIS DUARTE

20 jul

Era 2004.

Lembro bem a data: 5 de agosto.

Uma dor de dente terrível. Durante a tarde havia ido aos estúdios da rádio Gaúcha participar da mesa redonda mais ouvida dos gaúchos: Sala de Redação.

Quando saí recebi o telefonema:

-Te arruma…vamos na TV GUAÍBA.

Naquele ano estavamos trabalhando no documentário “Pedrinho morreu na primavera”, que narra a história de um dos mais importantes narradores do Rio Grande do Sul.

Clóvis Duarte, então apresentador do famoso CÂMERA 2, queria saber dessa história ao vivo.

O programa era tarde, umas dez horas da noite.

Meu dente explodia, mal conseguia falar.

Na porta da emissora encontrei o professor Ferraretto, orientador do documentário. Falei a ele do meu nervosismo e da minha dor.

Passamos pelos corredores da emissora, pelo jardim de inverno, descemos as escadas e entramos no estúdio. O programa estava no intervalo.

Clóvis, ainda na bancada, pediu que nos posicionassemos nas poltronas em um outro cenário. Eu de um lado, professor Ferraretto de outro. Além do apresentador e dos comentáristas, cinegrafistas e produtores lotavam o pequeno estúdio.

Clóvis Duarte deixou a bancada e já no ar foi falando de Pedrinho mas logo nos apresentou:

-O futuro jornalista Marcus Reis e seu professor estão aqui para falar sobre esse vídeo, sobre essa história…

A conversa foi animada, interessante… mas nada se compara ao vídeo que exibimos no meio da entrevista. Levamos uma espécie de “trailer” do documentário. Imagens de Pedro Carneiro Pereira, os depoimentos emocionados da esposa, dos filhos e de grandes e famosos amigos.

Foram três minutos.

Volta para o estúdio e uma imagem que nunca mais esqueci.

Clóvis Duarte olhava atento para o monitor que não mais exibia o vídeo. Voltou a olhar para as câmeras e a voz falhou. Clóvis havia se emocionado. Quase nenhuma palavra saia. Até que um “já voltamos”.

A vinheta do Câmera 2 rodava, Clóvis emocionado, Magda Beatriz na bancada também. E os cinegrafistas num silêncio absurdo.

Quem conheceu Pedrinho normalmente se emocioanava ao relembrar daquela história.

Minha dor de dente? Nem lembrava mais…

Falhou a voz de Clóvis Duarte.

Foi a primeira e única vez em que estive frente a frente com ele.

Hoje fui surpreendido com a notícia de que Clóvis morreu depois de tratamentos contra um câncer. O Rio Grande do Sul perdeu mais um grande jornalista. 

Um professor de Biologia que chegou a dar aula para os meus pais. Clóvis marcou a vida deles, a minha e a de tantos outros gaúchos que algum dia foram informados por ele.

Do dia 5 de agosto de 2004 até hoje muita coisa mudou.

O interessante é que hoje eu trabalho numa redação construída no mesmo espaço onde naquela época funcionava os estúdios do Câmera 2. Caminho, todos os dias, pelos corredores da antiga TV GUAÍBA, passo todas as tardes pelo jardim de inverno. Não há como não lembrar de Clóvis Duarte e da noite em que sua voz falhou no ar. 

ESTOU FICANDO VELHO, SÓ PODE!

11 jul

Não sei explicar mas me bateu agora uma saudade ABSURDA daquele corredor gelado, das aulas do Astomiro, do bar do prédio 11, da correria para pegar o bus da Vicasa, da empolgação do Ferrareto, das piadas do Marquinhos Villalobos.

 Ahh que saudade da festa que faziamos quando o professor não aparecia. Das provas… mesmo quando não dava tempo de estudar (um sentava perto da mesa do outro). Quem lembra daquela sala do CPA que tinha o teto muuuito baixo??

 Nas noites de calor, a ceva gelada do bar do bigode e as conversas no laguinho.

 Nas noites de inverno o chocolate pelando ou o sofá da coordenação do curso.

 Nas noites puxadas, o escurinho do ônibus das 22:40.

 Parece que ainda escuto a Vera arrastando os pés.

 Que saudade do RU que naquela época só dava direito a uma carne e a um suco. 

 Saudade das festinhas, dos encontros pós-aula, dos livros que esquecia de devolver, do que era proibido e que não estavamos nem aí.

 Hoje vou dormir com uma estúpida saudade dos velhos e bons tempos da faculdade. Dos jovens que tinham gana pelo diploma mas que sabiam aproveitar bem aqueles dias e principalmente aquelas noites. Dos jovens que viam um futuro diferente, que queriam mais diversão do que qualquer outra coisa.

 Juro que não imaginava, naquela época, que sentiria tanta falta daquilo tudo.

 Se eu pudesse gostaria de voltar para os mesmos anos, para as mesmas salas frias, para as mesmas turmas, com os mesmos problemas (que nem eram tão grandes assim). Como não podemos voltar…fico com as lembranças. E  são muitas…

E A MALLU ESTAVA LÁ??

22 jun

— E a Mallu, estava lá?

É o que todos perguntam quando digo que visitei Marcelo Camelo. Como se o ex-líder do Los Hermanos, a última banda brasileira a conquistar público e crítica, tivesse se transformado em mero marido de Mallu Magalhães.

Há três anos, o romance com a cantora-prodígio paulistana, então com 16 primaveras — Camelo tinha 30 — virou controvérsia nacional. “Só apareci no Fantástico quando o George Harrison falou de Anna Julia, quando apanhei do Chorão e quando comecei a namorar a Mallu”, ri Camelo, carioca de Jacarepaguá. O casal é alvo permanente de paparazzi. “Uma vez perguntei a um fotógrafo por que ele clicava a gente num café. Ele mandou: ‘Você é uma figura pública’. Matutei: em que momento assinei o contrato dizendo ‘sou uma figura pública’? Em que guichê desfaço esse contrato?”

Camelo se diz mais incomodado no Rio de Janeiro do que em São Paulo. “Aqui as pessoas são mais humanas, São Paulo não te neurotiza. O disco é também sobre a cidade, o bairro de Pinheiros, este apartamento e a minha banda, que virou minha família.” Além, claro, de tratar de amor. Com dez faixas produzidas e arranjadas por Camelo, todas com o auxílio luxuoso do cultuado grupo Hurtmold e de músicos como Marcelo Jeneci e Rob Mazurek, Toque Dela é um álbum escancaradamente romântico. Como sintetizam os versos “Tudo o que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela / Vai sobrar carinho se faltar estrada ou carnaval”, a obra está voltada para o aconchego, a intimidade, só com, de e para ela.

Amor, no entanto, é mais fácil cantar do que falar. Enquanto acende um dos cinco cigarros light fumados na conversa, esse jornalista que nunca foi buscar o diploma prefere usar a entrevista para falar… de jornalismo. Noticiarem mais seus atos e opiniões do que sua música perturba o barbudo de Havaianas, calção Adidas e camisa xadrez. “Minha vida não pode ser espelho pra ninguém. Hoje existe esse fascínio pelo artista de vida interessante, valorizado mais pelo que acontece do que por sua arte, tipo o Charlie Sheen. Minha vida não tem a menor graça: eu só toco, fico dias sem sair à rua. Vez em quando paro pra cozinhar um peixe. É o meu céu: solidão e um refogado. Opa! Não coloca isso, não… A Mallu pode chatear…”, sorri.

O “exílio” paulistano parece ter deixado o músico mais leve — longe daquela marra que costumava provocar irritação em parte da crítica que insistia em dizer: o ex-Hermano se leva a sério demais. Sem medo de se contradizer, Camelo não foge do assunto. Fala — não necessariamente a sério — de dinheiro, política, voyeurismo, drogas, vício em tecnologia, poesia (é apaixonado pela portuguesa Maria Gabriela Llansol), fotografia (tem obsessão por câmeras antigas), bacalhau (prato favorito) e Big Brother (programa predileto). Além da Mallu, por que não.

— A Mallu estava lá?

Estava sim. Na cozinha. Na sala. No corredor. Nos quartos. Por toda a casa se veem desenhos e frases coloridos feitos pela cantora. Amigos como o cartunista André Dahmer também deixam marcas nas paredes. Pinturas naïf de Ana Camelo, sua mãe, somadas aos muitos instrumentos musicais, às plantas e às garrafas de cerveja transformadas em vasos de flores silvestres dão ao espaço de 100 metros quadrados uma atmosfera incontornavelmente hippie.

O apartamento, alugado, em breve será trocado por outro no Rio de Janeiro ou em Lisboa, informa Camelo, que tem cidadania portuguesa. “O aluguel tá muito caro”, reclama. Apesar do ar desencanado, dinheiro é tema inevitável. Refletindo sobre a polêmica envolvendo o projeto do blog de Maria Bethânia — que renderia à baiana 1,3 milhão em renúncia fiscal via Lei Rouanet —, Camelo defende o direito de todo artista fazer seu projeto, mas questiona-se. “Será certo o Estado arcar com 100% do valor? Filosoficamente, sou contra pedir dinheiro via Rouanet, sempre achei que minha arte não é representativa o suficiente para ser financiada pelo Estado — essa grana tinha de ir para a educação, o artista que se vire sozinho. Por outro lado, já quis tocar em Belém e não pude porque o preço das passagens para a banda seria proibitivo”, pondera.

Apertando a medalhinha de São Judas Tadeu, tique recorrente nos momentos exaltados, Camelo reconhece não ter posição fechada sobre o assunto. “Se dizem ‘quer amarrar teu burro num ônibus de turnê, assinar um contratão?’, respondo que não me vejo nisso eternamente. Um artista introspectivo que goste de gravar e compor mas não curta viajar se complica… Glenn Gould iria se foder hoje, iriam vazar os discos dele na internet e ele iria morrer de fome! Não dá para viver dos direitos de Anna Julia pra sempre. Claro que não existe coisa mais legal que show. Mas não queria que fosse a única possibilidade de remuneração”, diz.

— Mas e a Mallu, estava lá?

Em Toque Dela, Mallu Magalhães só participa de um coro. “O ambiente do disco é ela, o subtexto é todo ela. Por isso ela não precisa estar”, explica Camelo. Ele sonha montar uma banda com a cantora, com quem mora há dois anos. “Quando a gente toca junto, é superbonito. Ela toca muito bem piano. Faz músicas inacreditáveis, meio Satie com Chiquinha Gonzaga. Ela é sem explicação, faz uma música atrás da outra. Tá com 30 novas. É a coisa mais linda do mundo, tenho um amor enorme de ver a Mallu compondo. Comigo, só se eu estiver num ano bissexto, a luz invertida, sozinho no quarto. Com ela, qualquer assunto é assunto, qualquer melodia é melodia. Eu busco isso, sabe, essa espontaneidade, essa criação distraída. É aquele negócio que o Cevare Pavese diz: ‘Poesia é quando o idiota olha pro mar e fala que parece azeite’. É essa distração que eu procuro. Tô tentando pensar menos…”, diz Camelo. Subitamente, o celular vibra e ele pede licença para deixar a mesa. “Oi, meu amor…”, derrama-se. “Tá vindo?” Dez minutos depois, o repórter percebe que a entrevista vai terminar. A dona da casa chegou.

(por Ronaldo Bressane – Alfa/Junho de 2011)

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